Cultura

“Tremembé: A Série Que Escancara Como o Brasil Transforma Criminosos em Heróis”

17/11/2025

Por Farney de Moura – Ponto de Vista News

Inicialmente, Tremembé surge como apenas mais uma série baseada em crimes reais. No entanto, a produção rapidamente expõe um problema cultural muito maior: o Brasil transforma criminosos em protagonistas admirados. Desse modo, a obra reacende um debate que o país costuma evitar, mas que afeta diretamente nossa percepção moral e social.


O Brasil cria anti-heróis — e o público aplaude

Ao longo do tempo, o país construiu uma relação ambígua com figuras fora da lei. Por exemplo, Lampião virou lenda; da mesma forma, traficantes ganharam status dentro de comunidades; além disso, assassinos inspiraram filmes e documentários.
Tremembé, portanto, não inaugura esse fenômeno; ela apenas o intensifica.

A série humaniza o criminoso, oferece espaço para sua versão e empurra o telespectador para uma empatia perigosa. Consequentemente, o foco deixa de lado a vítima e direciona luz ao agressor.


Quem alimenta essa transformação?

A mídia, a cultura do espetáculo e o próprio público.

O brasileiro consome violência com enorme facilidade. Além disso, programas policiais dominam a televisão, enquanto produções sobre homicidas ocupam rankings de streaming. Por outro lado, discussões sobre educação, prevenção e justiça raramente recebem a mesma atenção.

A mídia percebe essa tendência e, como resultado, cria mais conteúdos que colocam criminosos no centro da história. Assim, o crime se transforma em produto, audiência e lucro.
Logo, tragédias reais se convertem em entretenimento emocionalmente sedutor.


Tremembé e o ciclo moderno da idolatria do crime

A série reforça um comportamento que já cresce nas redes sociais. Posteriormente, esse mesmo comportamento se espalha para a cultura popular, criando fã-clubes de criminosos, páginas que os exaltam e jovens que repetem suas frases como se fossem símbolos de coragem.

Entretanto, esse processo não incentiva reflexão; ele apenas glamouriza violências reais.
Consequentemente, a narrativa perde o caráter educativo e se transforma em estímulo indireto à idolatria de figuras perigosas.

Por fim, o público passa a enxergar criminosos como personagens fascinantes, enquanto vítimas e famílias desaparecem do centro da conversa.


E o Brasil ganha o quê com isso?

Definitivamente, nada.
O país que converte criminosos em celebridades enfrenta efeitos diretos e graves.
Inicialmente, esse processo aumenta a sensação de impunidade;
além disso, incentiva jovens vulneráveis a enxergar o crime como caminho de notoriedade;
por outro lado, enfraquece valores sociais básicos;
consequentemente, contribui para uma sociedade desorientada moralmente.

Enquanto empresas lucram com narrativas violentas, famílias continuam sofrendo perdas que raramente ganham voz. Assim, o Brasil entra em um ciclo de consumo onde violência gera audiência, e audiência gera mais violência transformada em espetáculo.


Conclusão: Tremembé revela mais sobre o Brasil do que sobre o crime

Tremembé funciona como um espelho. Entretanto, poucos desejam olhar para o que ele mostra.
A série deixa claro que o país decide quem coloca no pedestal e, infelizmente, muitas vezes, escolhe o lado errado.
Portanto, precisamos questionar o que assistimos, o que compartilhamos e que tipo de figura escolhemos admirar.

Em resumo, enquanto o Brasil tratar criminosos como estrelas, ele continuará alimentando a cultura da violência e enfraquecendo a justiça social.

Finalmente, cabe ao público — e não apenas à mídia — mudar essa lógica.