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O “Reset Global”: Reestruturação Econômica ou Redefinição da Ordem Internacional?

12/02/2026

Nos últimos anos, o termo “Reset Global” passou a ocupar espaço relevante no debate político e econômico internacional. A expressão ganhou notoriedade especialmente após o Fórum Econômico Mundial apresentar, em 2020, a iniciativa denominada “The Great Reset”, defendendo a reconstrução das economias globais no contexto pós-pandemia.

O conceito, no entanto, extrapolou o campo institucional e passou a ser interpretado de diferentes formas por analistas, governos e setores da sociedade civil. Para uns, trata-se de uma agenda de modernização do capitalismo. Para outros, representa um possível movimento de centralização de poder em escala global.

Este artigo analisa os fundamentos da proposta, seus desdobramentos econômicos e as críticas que cercam o tema.


A origem do conceito

O “Great Reset” foi apresentado como uma proposta de reorganização das estruturas econômicas globais com foco em três eixos principais:

  1. Reformulação do capitalismo para torná-lo mais inclusivo e sustentável
  2. Aceleração da transição energética
  3. Ampliação da digitalização e da cooperação internacional

Segundo seus defensores, a pandemia revelou fragilidades estruturais no sistema econômico mundial, evidenciando a necessidade de reformas voltadas à resiliência produtiva, redução de desigualdades e fortalecimento de cadeias globais de suprimento.


Capitalismo em transformação

Um dos pontos centrais do debate envolve a proposta de um modelo chamado de “capitalismo de stakeholders”, no qual empresas deixariam de focar exclusivamente no lucro de acionistas e passariam a considerar impactos sociais, ambientais e institucionais em suas decisões.

Essa abordagem é vista por seus apoiadores como uma evolução necessária diante de desafios como mudanças climáticas, desigualdade social e instabilidade financeira.

Por outro lado, críticos argumentam que esse modelo pode ampliar a influência de grandes corporações e organismos multilaterais na formulação de políticas públicas, reduzindo o espaço de decisão soberana de governos nacionais.


Digitalização financeira e moedas digitais

Outro elemento relevante associado ao debate é o avanço das moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs). Diversos países estudam ou implementam versões digitais de suas moedas oficiais.

Os defensores destacam possíveis benefícios, como maior eficiência nas transações, redução de custos operacionais e combate a ilícitos financeiros.

Entretanto, há preocupações relacionadas à privacidade e ao potencial de monitoramento financeiro ampliado. A discussão sobre equilíbrio entre inovação tecnológica e garantias individuais tornou-se parte central do debate sobre o futuro do sistema monetário.


Soberania nacional e governança global

O debate sobre o “Reset Global” também envolve a relação entre soberania nacional e governança internacional.

Em um mundo marcado por interdependência econômica, crises sanitárias globais e desafios ambientais transnacionais, cresce a demanda por coordenação multilateral.

Contudo, críticos apontam que a ampliação de mecanismos globais de governança pode reduzir a autonomia decisória de Estados nacionais, especialmente em países emergentes.

A tensão entre integração internacional e preservação da soberania permanece como um dos principais eixos de discussão.


Conclusão

O chamado “Reset Global” não constitui, formalmente, um projeto único e centralizado de transformação mundial, mas sim um conjunto de propostas e debates sobre o futuro da economia global.

Ainda assim, o tema tornou-se símbolo de um momento histórico marcado por transições estruturais profundas: avanço tecnológico acelerado, reorganização de cadeias produtivas, reconfiguração geopolítica e redefinição do papel do Estado na economia.

A questão central não reside apenas na existência de um “reset”, mas na direção que essas transformações irão tomar e no grau de transparência, participação democrática e equilíbrio institucional que acompanhará esse processo.