20/10/2025
O gigante asiático encanta o mundo com sua força econômica, mas enfrenta uma desigualdade crescente que expõe o lado oculto do seu progresso.
O milagre econômico chinês
Nas últimas quatro décadas, a China viveu uma das transformações mais rápidas da história moderna. Desde as reformas de Deng Xiaoping, no fim dos anos 1970, o país saiu da pobreza e tornou-se a segunda maior economia do planeta.
Cidades como Pequim, Xangai e Shenzhen simbolizam esse avanço. Arranha-céus reluzentes, transporte público de ponta e um ecossistema tecnológico vibrante mostram a face moderna do país.
Por outro lado, milhões de chineses ainda convivem com realidades duras e desiguais.
A face oculta do crescimento
O progresso não chegou de forma equilibrada. As províncias costeiras prosperaram com o comércio e a indústria, mas o interior continua atrasado, com infraestrutura precária e salários baixos.
Apesar de o governo ter tirado centenas de milhões da pobreza extrema, o abismo entre ricos e pobres aumentou.
O índice de Gini permanece em torno de 0,47, revelando grande desigualdade na distribuição de renda.
Enquanto uma elite se beneficia do boom econômico, trabalhadores rurais e migrantes urbanos enfrentam dificuldades diárias.
Esses migrantes constroem os arranha-céus das grandes cidades, mas vivem em alojamentos superlotados e caros, longe dos benefícios do progresso que ajudaram a erguer.
Luxo e escassez lado a lado
Em Xangai, um metro quadrado de apartamento pode custar 30 vezes o salário médio anual. Para muitos jovens, o sonho da casa própria se tornou impossível.
Por isso, vivem em apartamentos minúsculos, às vezes com menos de 10 m², adaptados ao limite do conforto.
Nas ruas, carros elétricos de luxo cruzam com bicicletas enferrujadas. Cafés sofisticados dividem calçadas com barracas de comida popular.
Esse contraste reflete uma China dividida entre o futuro e o passado.
Além disso, milhões vivem sem o registro urbano, o chamado “hukou”. Sem ele, não têm acesso completo a serviços básicos como saúde e educação nas cidades.
O peso sobre as novas gerações
Os jovens chineses sentem o impacto direto dessa desigualdade. A rotina conhecida como “996” — trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana — gera exaustão e frustração.
Muitos desistiram da corrida por sucesso e riqueza. Esse movimento, chamado “Tang Ping” (“deitar-se plano”), virou símbolo de protesto contra o sistema.
Enquanto a elite desfruta de conforto e oportunidades globais, a classe média luta para sobreviver.
A pressão por status, casa própria e carreira bem-sucedida torna-se, para muitos, um fardo insustentável.
O desafio do campo e das pequenas cidades
Nas áreas rurais, a desigualdade é ainda mais evidente. A mecanização agrícola reduziu empregos, e os jovens migram em massa para as cidades.
Quem fica no campo enfrenta escolas precárias, falta de médicos e infraestrutura limitada.
Em muitas vilas, idosos vivem sozinhos, sustentados por pequenas aposentadorias. Os filhos, longe, enviam ajuda quando podem.
Essa realidade cria um contraste doloroso entre o progresso urbano e o abandono rural.
O discurso da “prosperidade comum”
Ciente do risco social, o presidente Xi Jinping lançou, em 2021, a política da “prosperidade comum”.
O plano busca reduzir a distância entre ricos e pobres e conter o poder das grandes empresas.
Contudo, a execução é complexa: redistribuir riqueza sem desacelerar a economia é um desafio monumental.
O governo tenta estimular o consumo interno e o desenvolvimento equilibrado entre regiões, mas os resultados ainda são tímidos.
Enquanto isso, as diferenças continuam visíveis nas ruas, nos salários e nas oportunidades.
O paradoxo chinês
A China é, ao mesmo tempo, um exemplo de sucesso econômico e um retrato da desigualdade global.
É o país que mais cresce, mas também o que mais revela os contrastes do capitalismo moderno.
Entre o brilho dos arranha-céus e a pobreza silenciosa dos campos, existe um povo resiliente, que se adapta e resiste.
O futuro da potência asiática dependerá de sua capacidade de equilibrar crescimento, justiça social e dignidade humana.




